quinta-feira, 9 de junho de 2011

de... trechos do Livro Até Sempre

... corri o quanto que eu pude, mas não consegui avisar da postagem da carta...
....os dias aqui são tão difíceis que agora entendo o que meu pai quis dizer sobre brevidade de vida.

São muitas pessoas doentes, feridas, machucadas ou mutiladas, misto de crinças , adultos ou velhos, mutilados pela dor, descaso, pela violência de uma guerra que nem eu entendo o porquê,...
A medicina aqui não é paleativo, fazemos o que podemos. Ontem explodiu um morteiro muito perto de nosso jipe, pensei que não voltaria a ouvir música novamente.

No dia em que cheguei, confesso que queria mesmo era fugir de tudo, dos meus pais, do mundo, de você...talvez seja cedo para dizer se me encontrei, ou se me perdi mais ainda.

Creio que não. Consigo falar um meu inglês, consigo aprender a língua nativa, mas a linguagem universal que mais usamos é do socorro, do olhar , da mão extensa...!!!
Não, definitivamente não voltarei mais. Por enquanto ainda não.

Poderão dizer, mas há tantos médicos e essa guerra não te pertence!
Mas eu pertenço ao mundo,este pequeno mundo que tento entender, mesmo que poucos ou quase ninguém me entenda.

A carta talvez demore  a chegar, mas o sentimento é o mesmo de amor e carinho a todos.

Fiquem em paz e calmos, tenho zelo suficiente para saber que as armas não são de brinquedo e as mortes são reais demais para não deixar-me dormir em paz.

( setembro 1998 )

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