sábado, 14 de março de 2015

A DIFÍCIL ARTE DE ERRAR






Franquiamos o amor.
Alugamos as passagens das mãos.
Patenteamos o " se cuida ".


E por tanto não querer errar, o esforço do homem tornou-o escravo.
Aceitamos amar com a fórmula perfeita do remédio sem contra-indicações.



O amor tem que ser na hora que caiba na agenda do celular,
tem que ocorrer no intervalo do almoço ,
não pode ser em dias frios ou mornos,
deve possuir visão européia de comercial,
não deve levar tempo.

Franquiamos o amor.
A marca está em desuso.
As prateleiras são vazias de sensações,
e carentes de verbo.

Todos querem comprar o " feito" e sem defeito.
Não se tem tempo para corrigir, a negação é a voz que impera através de celulares.
A distância entre espírito, e essência é tão grande que abarca o horizonte.
Muitos choram, até mesmo sem saberem o porquê ...

As lágrimas antigamente tinham a função fisiológica de lubrificação do globo ocular,
e libertar a dor, passageira ou não, da alma.

O relógio não rege mais os encontros.
O imediatismo criou escravidão da velocidade sem o julgamento dos sentidos.
Vive-se por viver mas sem saber ...

Franquiamos o amor.
Esse perfeito estado que nunca será mutável.
Desejamos por posse essa perfeição, sem o mínimo esforço da luta.

E tu não me entendes até agora?

Por não querer errar, as pessoas optam por nem tentar.
Tentar é erro, tentar envolve sair da sombra, entrar na chuva, cair no asfalto,
quebrar a boca, rachar o lábio, apanhar nas costas,
sentir desprezo, sentir frio no verão,
calor no inverno,


despedida ,
chegada,
telefone mudo,
cachecol com perfume ainda,
café ,
foto em preto e branco,
medo de perder,
alegria de ganhar,
descobrir-se
chorar,
boca amarga, boca quente
boca sentida,
lábios silenciosos
coração na boca,
no estômago,
no travesseiro...
Caminhar sem rumo,
atravessar a neblina,
não ser ouvido(a),
ou ser entendido,
dar, doar, emprestar ou perder.

Essa é a difícil arte de errar.

parte 01

Nenhum comentário:

Postar um comentário