quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

FERNANDO E CAUÊ



Fernando está sentado exatamente no mesmo lugar, após rodar um pouco do mundo de outra pessoa, e retornar com a roupa do corpo.

Fernando envelheceu.
Não pela cor dos cabelos ou toques brancos no início de barba.
Mas, pela cor dos olhos.

São olhos morenos castores, mas cansados.
Cansados da decepção não criada por si, mas da decepção calculada pelos outros.
Não do medo, porque Fernando tem medo que o impulsiona.
Mas alimentaram mal meu amigo.

Fernando respira longamente enquanto se esconde novamente atrás dos óculos escuros.
Eu olho para ele, exatamente de frente para mim e lhe digo:

- Cativar e cativeiro.

Ele volta a respirar e deixa molhar a madeira que apoia seus cotovelos enquanto a cerveja preta desce pela garganta, talvez sem gosto algum.

Retira os óculos e me observa.
Realmente o cansaço invade agora seus olhos, e sorriso, escrita e pensamento.
Ele sorri amarelado com a vergonha não de si, mas por ela.

- Você cativou muito mais do que possa imaginar. E o cativeiro é justamente aquela luz lá atrás que não se apaga quando saímos da escuridão,
ou quando olhamos pelo retrovisor e algo ficou lá atrás e cruzou a estrada,
ou, quando não podemos olhar mais da janela do trem , alguma peculiaridade, somente nossa,
ou quando toca uma música e dói dentro,
ou uma frase, uma palavra...
É o e se, que nunca terá resposta.
São os pensamentos que se perderão dentro do mar, dissolvidos lentamente.
É a dúvida eterna. É o erro de quem cometeu misturando amor, dor, dúvida, e erro, fuga e incapacidade, covardia e má fé.
O cativeiro criado não por você, mas por ela.

Fernando, meu querido e estimado amigo.
Olho para você, e você olhando para o leste. ( mais uma vez para o leste )

- E você me chamou aqui Fê exatamente para o quê?

Não há resposta.

A cerveja é finalizada.
Fernando amassa o papel.
Pega o celular, a chave do carro e óculos.
Ergue-se.

Eu , por um milésimo de segundo , olho para a mesa.
Ao olhar novamente...
Fernando?
Foi.

Ergo-me, pego o celular, a chave do carro, 
E sigo.



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